sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Xadrez vira aliado do ensino de matemática

Jogo milenar é adotado em escolas e melhora concentração e disciplina dentro e fora das salas de aula
Clarissa Carvalhaes - Repórter - 8/09/2010 - 03:39
Os alunos das escolas públicas e particulares de Belo Horizonte e Região Metropolitana têm um novo aliado: o xadrez. Desde quando o jogo passou a integrar as atividades dentro e fora das salas de aula, a concentração e a disciplina têm feito parte do dia a dia dos estudantes. Um comportamento que excede os muros das escolas.

Há quatro anos, as aulas de matemática na Escola Estadual Menino Jesus de Praga, no Bairro Lagoa, Região de Venda Nova, não são mais as mesmas. As boas notas, que antes passavam longe dos diários da disciplina, caminham lado a lado com o respeito e a dedicação aos estudos.

Quando as primeiras aulas de xadrez começaram, a aderência foi de cerca de cem alunos. Atualmente, a escola conta com 400 estudantes envolvidos. E o jogo, que antes era restrito às aulas de matemática, é hoje trabalhado nas aulas de educação física e também faz parte da programação do Escola Integrada. Segundo a diretora da instituição, Desiré Emmels, até o índice de violência dentro da escola diminuiu. "Os estudantes estão mais tranquilos e concentrados, as discussões entre eles diminuíram, assim como os conflitos entre os alunos", disse.

Dados da Secretaria de Estado de Defesa Social, de 2010, mostram que a Região de Venda de Nova está entre as duas mais violentas da capital - disputando a primeira colocação com a Regional Barreiro. Entretanto, o subcomandante do 49º Batalhão da PM, major Lucas, afirmou que, há dois anos, o batalhão não é acionado pela direção da escola para resolver conflitos, e atribui isso ao esporte.

Na Escola Estadual Silviano Brandão, no Bairro Lagoinha, também Região de Venda Nova, a indisciplina está fora das salas de aula desde 2001, quando o xadrez passou a fazer parte da rotina dos estudantes. Para os que estavam carentes de opções de lazer, o xadrez chegou como uma conquista, destoando da realidade dos jovens da comunidade - sempre tão acostumados a não desfrutar de oportunidades de entretenimento.

Em 2008, a adesão foi tão grande que a escola decidiu promover o primeiro campeonato de xadrez. "Mais de mil estudantes vieram até nossa escola só para jogar. São jovens que não têm muitas alternativas de lazer, mas, quando uma chance aparece, faturam campeonatos e trazem troféus para a escola", disse a diretora do colégio, Nilce Faria Campos, que acredita que o jogo deveria fazer parte da grade curricular de ensino.

Na Escola Municipal Paulo Freire, Bairro Ribeiro de Abreu, Região Norte de BH, o xadrez foi implantado há três anos, com a adesão de 12 alunos. Atualmente, com 40 participantes, o jogo está em todos os cantos da escola. Foi pintado em mesas, bancos e, se não for suficiente para atender à demanda, ainda há tapetes e tabuleiros de xadrez adquiridos pelo colégio.

A coordenadora do Escola Integrada da instituição, Maria do Socorro Lages Gusmão, diz que os alunos passaram a ensinar uns aos outros e até os professores que não sabem jogar, se dispõem a aprender. O resultado para tanta dedicação não poderia ser melhor: a aversão pela temida disciplina do números se transformou em desafio, e hoje, os estudantes que antes não gostavam da disciplina participam das Olimpíadas de Matemática.

Lógica, tática e estratégia

Mas o que faz do xadrez um jogo tão diferente dos demais? Ao contrário de muitos outros - onde a sorte e força prevalecem - para ser um vencedor no xadrez é preciso considerar a lógica, a estratégia e a tática. E quem joga passa a desenvolver comportamentos e sensações importantes não só dentro da escola, como também na vida.

A partir do xadrez, o jogador desenvolve o autocontrole psicofísico, a capacidade de pensar com abrangência e profundidade, a tenacidade e empenho no progresso contínuo, a criatividade e imaginação, além de ampliar o respeito à opinião do interlocutor. Também sente-se estimulado a tomar decisões com autonomia e exercitar o pensamento lógico e a fluidez de raciocínio.

O professor de Educação Física da Escola Municipal Paulo Freire, Francislau Ribeiro Barbosa, 27 anos, conta que a maior dificuldade do xadrez está no decorar das peças e cada uma de suas funções, "mas a partir da sétima aula já é possível jogar com facilidade", garante. Aluno de Francislau, o estudante Jeferson Pereira Alves, 15 anos, está na 8ª série e desde quando começou a jogar xadrez, há dois anos, viu seu poder de concentração aumentar.

O professor de xadrez do Colégio Nossa Senhora das Dores, Sérgio Luiz do Nascimento destaca que em países como Estados Unidos, Inglaterra e França, o xadrez é considerado uma matéria de relevância. "Não estamos apenas falando em movimentar peças; o xadrez ensina a humildade, a perseverança, a medir as consequências dos atos, a pensar no futuro. Ele abre as portas para a cultura. É um grande professor para a vida".

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