segunda-feira, 17 de maio de 2010

O XADREZ E A HISTÓRIA RECENTE...

Do blog: viriatovitchchess.blogspot.com


O XADREZ E A HISTÓRIA RECENTE...




A ascensão e queda do xadrez no século XX estiveram vinculadas à chamada Guerra Fria e ao investimento da URSS no jogo.
Sem a atmosfera ameaçadora daquela era, foi dissipada grande parte do capital em volta do xadrez num período que durou mais que uma década.


O xadrez sempre foi um simulacro dos confrontos políticos e militares, de generais e diplomatas, com todas as suas jogadas da abertura ao xeque-mate.

O jogo foi internacionalmente popular por mais de dois séculos, mas, assim como o gênero literário do romance policial, ele também travava a sua própria batalha na Guerra Fria.

Vamos a um entre vários exemplos:
A cena inicial de um dos primeiros filmes de James Bond, "From Russia With Love" de 1963, é uma partida de xadrez entre dois mestres.
E na vida real, foi a partida entre Fischer e Spassky, em 1972 - quando um gênio norte-americano excêntrico esmagou 25 anos de hegemonia soviética no xadrez e que marcou o início do fim da Guerra Fria.


O xadrez funcionou como uma mega-metáfora para essa guerra psicológica, cujo significado amplio deriva do importante papel do jogo na sociedade comunista soviética.
Os russos podem ter ficado para trás em termos de tecnologia militar ou competição econômica, mas nos tabuleiros de xadrez eles tinham a supremacia.
Um campo de batalha que pela primeira vez na história se tornou genuinamente global poderia ser metaforicamente traduzido nos 64 quadrados do tabuleiro.


O xadrez proporcionou uma das válvulas de escape mais seguras e que manteve a tampa sobre a Guerra Fria.
Mas afinal, como veio o xadrez desempenhar esse papel, ao mesmo tempo de símbolo da guerra e de sua antítese ?
E como é que o xadrez iluminou o processo pelo qual o Ocidente triunfou sobre o comunismo?


O lugar do xadrez na cultura européia reflete de perto a ascensão e a queda da elite culta, para a qual o jogo era a modalidade preferida de recriação.
A história começa com uma imagem que registra um dos grandes encontros da modernidade: o retrato de um grupo, pintado em 1856 por Moritz Daneil Oppenheim, que mostra três grandes figuras do pensamento do século XVIII - o dramaturgo Gotthold Ephraim Lessing, o místico suíço Johann Caspar Lavater e o filósofo judeu Moses Mendelssohn. O foco da pintura, em torno do qual há ornamentos do Iluminismo, é um tabuleiro de xadrez.


Lessing e Mendelssohn se conheceram em 1754, após um amigo mútuo recomendar este último ao já célebre Lessing, como parceiro de xadrez.
Foi um encontro providencial de dois homens notáveis, mas também de duas culturas. Em "Nathan the Wise" ("Nathan, o Sábio"), um livro que foi o trabalho mais popular do autor, Lessing, o cristão, descreveu um Mendelssohn idealizado como Nathan: inteligente, esclarecido e judeu.


O progresso do xadrez, passando pelo estágio de "hobby" e atingindo a maturidade artística e científica, foi acelerada pela assimilação judaica, que transformou a Bildungsbürgertum, a classe média culta da Mitteleuropa que falava alemão, em agentes de reforma modernista.
A simbiose judaico-alemã - apesar de manchada pelo anti-semitismo - proporcionou o contexto cultural no qual o xadrez poderia se transformar no entretenimento intelectual preferido.
E de meados do século XIX em diante, uma proporção extraordinariamente alta de mestres de xadrez, incluindo a maior parte dos grandes campeões mundiais, era composta por judeus.


O xadrez é um caso especial de um fenômeno mais genérico - o QI acima da média dos "judeus ashkenazic de origem européia" - que gera muitas questões e ainda desafia as explicações simples.
Não sabemos se os judeus possuem uma tendência inerente para brilharem no xadrez, ou se sentem atraídos pelo tabuleiro porque este jogo intelectualmente desafiador, competitivo e sedentário se encaixa no estereótipo prevalecente do judeu da Europa do século 19.
O que sabemos é que aquilo que Gerald Abrahams identificou como a "mente do xadrez" - uma combinação de memória, lógica e imaginação - tem muito em comum com as habilidades que eram e são características da vida intelectual judaica.
Acima de tudo, o estudo de textos sagrados remete a um jogo sobre o qual mais livros foram escritos do que sobre todos os outros jogos tomados em conjunto.
O jogo do livro parece ter exercido uma atracção muito especial sobre estas pessoas.


No Nathan, de Lessing, o xadrez é descrito como uma paixão particular de Saladino, o esclarecido sultão muçulmano, que levou um xeque-mate da sua irmã Sittah.
Para os intelectuais cosmopolitas de Lessing, o xadrez era uma forma de superar o preconceito - religioso, racial, nacional e sexual.
Por excluir o factor sorte ( que a há objectivamente !) e portanto desencorajar apostas, o xadrez era o único jogo digno de um cavalheiro (Até 1987, era o único jogo permitido no Palácio de Westminster).


Mas o estatuto do xadrez no Iluminismo foi ambíguo.
O jogo fascinou vários dos expoentes do movimento, do filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz.
(Que antecipou o computador de xadrez)
ao enciclopedista Denis Diderot.
O xadrez, que era um passatempo nobre desde a sua primeira vaga de popularidade dez séculos atrás, na corte do califa Haroun al-Rashid, em Bagdá, ainda era visto de forma geral como uma diversão frívola de uma classe voltada para o lazer, e não como uma actividade séria.
Ao final da era vitoriana, o livro "Through the Looking Glass" ("Através do Espelho") de Lewis Carrol ainda tratava o xadrez como entretenimento infantil.


No decorrer dos séculos 19 e 20, o xadrez emergiu como actividade popular competitiva, com torneios internacionais que geravam amplo interesse popular - o primeiro deles em Londres, em 1951.
Os balneários e "Spas" da burguesia européia tratavam o xadrez como atracção turística, e forneciam os meios financeiros para que dezenas de mestres ganhassem a vida com o jogo.
Alguns, poucos, alcançaram proeminência em outras profissões: Adolf Anderssen era professor, Ignác Kolisch banqueiro, Siegbert Tarrasch médico, Amos Burn comerciante, Milan Vidmar engenheiro, e Ossip Bernstein advogado. Outros valorizavam mais o seu desempenho acadêmico (Howard Staunton e Emanuel Lasker) ou status social (Paul Morphy e José Raúl Capablanca) do que o talento como xadrezistas.
No entanto, por volta de 1900, o xadrez de alto nível não era mais um jogo de amadores, e os profissionais não precisavam mais passar pela indignidade de jogar com quem quer que os desafiasse.
Em vez disso, o xadrez passou a aspirar ao estatuto de uma forma artística e de uma ciência.
Os anos anteriores a 1914 foram os de uma era dourada do xadrez, sobretudo na Europa Central.


Os termos "mestre" e "grande-mestre" deram ao xadrez uma certa mística, como se os iniciados no jogo formassem uma espécie de maçonaria.
Mas o uso desses títulos não é muito antigo, remontando, no máximo, ao início do século XIX:
a primeira menção registrada ao termo "grande-mestre" na Inglaterra é de 1838. Inicialmente, "mestre" significava um jogador experiente, profissional ou não, enquanto que "grande-mestre" ficou reservado a um punhado de mestres de estatura internacional.
Em 1914, o czar Nicolau II, concedeu o título de grande-mestre a cinco finalistas do torneio de São Petersburgo - Lasker, Capablanca, Alexander Alekhine, Tarrasch e Frank Marshall.
O título só foi formalizado pela Federação Mundial de Xadrez - Fide, em 1950 quando criou uma hierarquia de títulos, culminando com o de "grande-mestre internacional", que seria conquistado por um jogador que apresentasse consistentemente bons resultados em competições de grandes mestres.
O resultado foi uma gradual banalização do título, e actualmente há várias centenas de "Gm`s".
A lacuna entre a vasta maioria e o campeão mundial ampliou-se a um tal ponto que Garry Kasparov era capaz de disputar partidas simultâneas contra algumas das equipes nacionais mais fortes, como a de Israel e da Alemanha, vencendo-as sem perder sequer um jogo !


O primeiro Grande-mestre a ser reconhecido como supremo, o compositor François-Andre Danican Philidor, deve muito da sua fama no xadrez ao exílio. Prescrito pelo directório revolucionário francês como membro da corte, ele foi obrigado a emigrar para Londres, onde ganhou a vida como jogador de xadrez.
A façanha de Philidor de jogar xadrez de olhos vendados contra vários oponentes simultaneamente fez dele uma breve celebridade.
Acabou morrendo como imigrante pobre.


Os anos revolucionários de 1789, 1848 e 1917 fizeram com que vários outros jogadores de xadrez partissem para o exílio.
Após a fracassada revolução de 1848, uma outra figura que seguiu para Londres foi Karl Marx.
Marx adorava xadrez e, para desespero da sua mulher Jenny, desaparecia com os seus colegas imigrantes por dias seguidos para participar em torneios do jogo !
Apesar de dedicar grande parte do seu tempo ao xadrez, ele nunca conseguiu ir além da mediocridade.
Jean-Jacques Rousseau, também foi um xadrezista boémio, assim como seriam, mais tarde, Lenine e, especialmente, Trotsky (a notícia do triunfo de Trotsky na Revolução Bolchevique foi saudada pelo chefe dos garçons do Café Central em Viena com as palavras: "Ah, esse deve ser o nosso Herr Bronstein da sala de xadrez !").


Lenin, playing chess
Quando em 1917 os comissários da utopia abandonaram os cafés e se apossaram do Kremlin, trouxeram consigo o xadrez.
Em meados da década de 20, a nova União Soviética decidiu adoptar o jogo como uma forma de treino mental, uma preparação para a guerra e a paz.
O xadrez era visto como uma demonstração do materialismo dialético, da ausência do factor sorte, o que o tornava apropriado ao gosto austero da liderança do partido.
O xadrez foi classificado como um jogo que transcendia as classes sociais, não inconspurcado pela ideologia burguesa, e, portanto, apropriado para as novas organizações proletárias.
E assim teve início a experiência sem precedentes da incorporação do xadrez à cultura oficial da revolução comunista.


Enquanto isso, no Ocidente os anos 20 testemunhavam o apogeu da arte modernista, que no xadrez teve o seu equivalente na escola hipermoderna, uma reação romântica ao classicismo da geração mais antiga.
Assim como os artistas se voltaram para a abstração, ou os compositores abandonaram a tonalidade, no xadrez os jovens mestres fizeram experiências com movimentos que antigamente eram tidos como "feios", mas que incorporaram novas idéias estratégicas.
O iconoclatismo na arte e no xadrez aglutinou-se na pessoa de Marcel Duchamp, que jogava suficientemente bem para representar a França ao lado do campeão mundial, o genial imigrante russo Alexander Alekhine.


Marcel Duchamp, 1950
No entanto, em 1929 a bolha especulativa de prosperidade europeia estourou, causando generalizados danos colaterais, não só nas artes e nas ciências, mas também no xadrez.
O caso de Emanuel Lasker, que foi campeão mundial durante uma geração, de 1894 a 1921, ilustra o impacto da catástrofe européia sobre aquela que foi uma das personalidades mais impressionantes na História do xadrez.
Lasker, filho de um pobre cantor judeu nascido na fronteira entre a Alemanha e a Polónia, era um matemático suficientemente bom para trabalhar com Albert Einstein, além de poeta, inventor e filósofo com obras publicadas.
Os seus trabalhos sobre a teoria dos jogos, e acima de tudo o seu "Manual de Xadrez", ainda hoje são clássicos de leitura quase obrigatória.
Lasker, conquistou a independência financeira por meio do jornalismo e das palestras, enquanto o seu prestígio possibilitou que obrigasse os organizadores a proporcionar remuneração adequada e condições de jogos para o xadrez internacional.


Quando os nazis chegaram ao poder, Lasker
(Nessa altura com mais de 60 anos e afastado do xadrez de competição) imediatamente atraiu uma atenção hostíl.
Os seus trabalhos filosóficos tornaram-no amigo de Walter Rathenau, o ministro das Relações Exteriores assassinado por anti-semitas;
a sua cunhada era a poetisa judia Else Lasker-Schüler, e a sua mulher, Martha, escrevia jornais satíricos banidos pelo Terceiro Reich.
A casa de campo, o apartamento em Berlim e a poupança dos Lasker foram confiscados.
Assim como milhares de outros judeus alemães, eles passaram a viver uma existência nomada no exílio.
Se estabelecendo primeiro na Inglaterra, Lasker foi obrigado a retornar ao xadrez, e em grandes torneios como Zurique, Moscovo e Nottingham, ele não perdeu com os maiores mestres das gerações mais jovens.
O campeão mundial, Alekhine, declarou: "A idéia de xadrez como arte seria inconcebível sem Emanuel Lasker".


Após o torneio de Moscovo de 1935, Lasker foi convidado a ficar na capital soviética, vinculado à Academia de Ciências.
Durante a sua estadia de dois anos em Moscovo ele é aclamado pelo aparato partidário, e parece ter sido deixado em paz para prosseguir com seus estudos.
Só que, em 1937 Lasker levou a mulher para uma visita aos Estados Unidos, com a aparente intenção de voltar.
Eles nunca retornaram !
Naquela altura, Lasker não poderia desconhecer o grande terror promovido por Estaline, uma ameaça que se desdobrava ao seu redor, e o perigo que isso representava para estrangeiros.
Lasker, um dos expoentes máximos do "xadrez como uma forma de arte" não podia sobreviver nem na Rússia de Estaline nem na Alemanha de Hitler.
A maior parte de sua família pereceu no Holocausto, mas a sua sobrinha Anita, que foi obrigada a tocar na banda do campo de concentração de Auschwitz, sobreviveu para contar a sua história.


Guerra e xadrez eram duas coisas que a União Soviética sabia fazer.
E essas duas coisas estavam conectadas desde o princípio na pessoa de Nikolai Vasilyevich Krylenko (1885-1938).
Lenine, nomeou Krylenko chefe do comissariado de justiça, assim que os bolcheviques se renderam aos alemães.
Quando na Checoslováquia lançaram o terror vermelho no final daquele ano, Krylenko declarou:
"Precisamos executar não só os culpados.
A execução de inocentes impressionará ainda mais as massas".


Krylenko, colocou essas ideias em pratica no decorrer da sua carreira sangrenta. Depois, em 1937, quando Estaline se voltou contra os veteranos da polícia secreta, Krylenko foi não só "liquidado", mas também varrido da história. Somente nos anos 60 o velho monstro foi reabilitado como um dos fundadores do xadrez soviético.

Isso porque, em 1924, Krylenko assumiu a tarefa de transformar o xadrez no jogo nacional da União Soviética.
Como presidente da secção de xadrez do conselho supremo de cultura física das repúblicas socialistas russas, Krylenko persuadiu o Kremlin a organizar o primeiro torneio internacional em Moscovo, em 1925, um evento que foi precursor de outros dois, um em 1935 e o outro em 1936.
Na sua introdução ao livro do torneio, ele escreveu: "Em nosso país, onde o nível cultural é comparativamente baixo, onde até agora os passatempos típicos das massas eram a fabricação de bebidas alcoólicas, a embriaguez e as brigas, o xadrez é um meio poderoso para a elevação do nível cultural geral".
Krylenko, editou o principal jornal soviético de xadrez, o "64", mantendo controle ideológico sobre a comunidade de xadrez que rapidamente chegou a dezenas de milhões de jogadores.
O slogan do partido era: "Levem o xadrez aos trabalhadores!".


A popularidade maciça do jogo que foi despertada pelo torneio de Moscovo de 1925 está registrada em "A Febre do Xadrez", de Vsevolod Pudovkin e Nikolai Shpikovsky, um agradável filme mudo que não fornece pistas a respeito dos monstros já hipnotizados pelo sono que tomou conta da razão na Rússia. José Raúl Capablanca, o campeão mundial cubano, apareceu como figurante nessa estória de um jovem tão obcecado pelo xadrez que negligenciava a namorada.


Chess Fever, 1925

Os milhões de jovens pioneiros soviéticos do xadrez de cujos quadros emergiu a primeira geração de mestres soviéticos do jogo estavam, de forma similar, distraídos do pesadelo que era a realidade do "Gulag".
Num Estado no qual a religião era brutalmente suprimida, o xadrez tornou-se um dos ópios do povo.


A princípio, o xadrez soviético tinha poucos resultados que justificassem os escassos recursos investidos pelo Estado na criação de um elaborado sistema hierárquico.
O primeiro torneio de Moscovo, em 1925, foi de facto ganho por um russo, Yefim Bogolyubov, que ficou a frente de Lasker e de Capablanca.
Só que, ele logo se juntou às legiões de imigrantes russos na Alemanha.
E o mesmo fez Alexander Alekhine, que sucedeu a Capablanca como campeão mundial, mas que jamais retornou à Rússia, vagueando pela Europa, fumando e bebendo compulsivamente.
Durante a decisão do campeonato de 1935 com o holandês Max Euwe, um confronto que perdeu, Alekhine foi encontrado bêbado num campo.
Dois anos mais tarde ele recuperou o título, não tendo bebido nada, a não ser leite, durante o campeonato.


O destino de Alekhine, e dos outros intelectuais do género, que deixaram a sua pátria, foi imortalizado no primeiro grande romance de Vladimir Nabokov, "A Defesa Luzhin".
Escrito em russo quando o jovem escritor lutava para sobreviver em Berlin da década de 20, o livro conta a história de Luzhin, um gênio do xadrez que vive na fronteira da insanidade, e para quem o mundo fenomenal - o mundo da política, do dinheiro e até mesmo do amor - mal existe.
Uma jovem se dispõe a salvar Luzhin daquilo que ela considera como a monomania do rapaz, mas ele não sabe ao certo se quer ser salvo.
Ele só é capaz de resolver a sua crise existencial por meio do suicídio.
Nabokov, ele próprio um grande jogador de xadrez, descreve com perfeição a psicologia do jogo.
O título dá uma dica: A defesa Luzhin seria uma abertura de xadrez, mas no livro ela significa o mecanismo profiláctico atrás do qual Luzhin se refugia.
O autor também usa o jogo como uma metáfora da vida intelectual, e o romance é uma elegia para a frágil cultura européia que ele vê desmoronar à sua volta.


Luzhin, não é um personagem baseado em nenhum indivíduo em particular, mas, além de Alekhine, ele se assemelha a dois outros Grandes-mestres imigrantes:
Aron Nimzowitsch e Akiba Rubinstein, oriundos de famílias judaicas devotas, da Letônia e da Polônia, respectivamente.
Ambos jogavam um xadrez de grande originalidade, mas não tinham a tranqüulidade nem a garra para se tornarem campeões mundiais.
Os dois eram solitários ascéticos, psicologicamente frágeis e excêntricos.
Nimzowitsch, fazia exercícios calisténicos durante os seus jogos.
Um brilhante escritor, mas completamente absorvido pelo seu próprio universo, ele fez de si o principal teórico da escola hipermoderna com o tratado "O Meu Sistema". Rubinstein, assim como o fictício Luzhin, às vezes pulava pelas janelas se um estranho entrasse na sala !
Ele passou os últimos 30 anos da sua vida num hospício.


O primeiro e maior herói do xadrez da União Soviética foi Mikhail Botvinnik.
Nascido em 1911, ele pertenceu à primeira geração a chegar à maturidade sob o comunismo, e, assim como vários dos seus contemporâneos, era formado em engenharia - de facto, ele mais tarde deu importantes contribuições à computação soviética.
A sua primeira aparição no exterior, no torneio anual de Hastings, em 1934, foi um fracasso.
Botvinnik trabalhou no sentido de corrigir suas deficiências, e quando retornou à arena internacional, no torneio de 1936 em Nottingham, ficou em primeiro lugar, juntamente com Capablanca e a frente de Euwe, Alekhine e Lasker - todos campeões ou ex-campeões mundiais.
Nenhum jovem soviético fora tão célebre antes.


O domínio soviético do xadrez foi estabelecido pela vitória de Botvinnik na partida decisiva do torneio de 1948 em Haia, que incluiu os cinco principais Grandes-mestres após a morte dos campeões mundiais Alekhine, Lasker e Capablanca.
Nunca se dissipou completamente a suspeita de que Paul Keres, um jovem estoniano cujos resultados antes e no decorrer da guerra eram iguais aos de Botvinnik, sofreu pressões das autoridades soviéticas como resultado da sua suposta "colaboração" durante a ocupação nazi.
Keres, jogou bem contra os seus outros três rivais, mas desmoronou contra Botvinnik, possibilitando que este fosse o novo campeão.
No meio do torneio, a liderança soviética entrou em pânico devido à ameaça representada pelo campeão norte-americano, Samuel Reshevsky, que venceu Botvinnik em um óptimo jogo.
Botvinnik foi obrigado a se explicar ao comité central, mas foi capaz de assegurar que poderia vencer.
Se o norte-americano, que perdeu o impeto na segunda metade do torneio e que terminou em terceiro lugar, tivesse vencido o título, Estaline poderia ter retirado o apoio não só a Botvinnik, mas a toda a infraestructura do xadrez soviético.


Tal como vários GM`s anteriores a ele, Botvinnik era judeu, e como muitos outros judeus comunistas com o seu histórico, ele acreditava que o novo Estado socialista colocaria um fim aos pogroms da Rússia czarista.
De facto, o xadrez soviético alcançou a supremacia em parte porque os nazis mataram ou mandaram para o exílio praticamente todos os judeus da Europa Central e Ocidental.
Embora, a maior parte dos maiores mestres de xadrez soviéticos fosse judaica - além de Botvinnik havia David Bronstein, Mikhail Tal, Yefim Geller, Viktor Korchnoi e Garry Kasparov (nascido Weinstein) -, Estaline era anti-semita.
Até mesmo na era Brezhnev, os judeus (incluindo numerosos mestres de xadrez) sofreram discriminação e sobre eles pairavam suspeitas de lealdades duplas, especialmente quando os dissidentes judeus exigiram o direito de emigrarem para Israel.
Natan Sharansky, conseguiu manter-se lúcido na prisão em parte porque jogou de cabeça milhares de partidas de xadrez contra si próprio.
Sharansky foi durante um curto período ministro de governo de Ariel Sharon, e, com o seu livro "A Case for Democracy", foi também uma inspiração para famigerado presidente George W. Bush.
Mas o facto que o deixa mais orgulhoso foi que, quando o maior de todos os campeões russos, Garry Kasparov, visitou Israel e fez uma demonstração simultânea contra oponentes múltiplos, Sharansky ainda estava suficientemente em forma para derrotá-lo !
A experiência de Sharansky faz lembrar uma das melhores histórias já escritas sobre o xadrez: "Novela de Xadrez" de 1941, um romance do escritor judeu austríaco Stefan Zweig.


Quando a poeira baixou após a guerra, ficou claro que os russos tinham superado em muito os outros países no xadrez.
Os Estados Unidos, que, parcialmente graças à imigração judaica da Europa, emergiram como a nação mais poderosa do xadrez na década de 30, ficaram chocados em setembro de 1945 quando, no primeiro torneio importante do pós-guerra entre as novas superpotências, a União Soviética massacrou a equipe norte-americana em uma disputa por rádio.
No ano seguinte a URSS aniquilou a Inglaterra.
Durante as três décadas seguintes, a única concorrência séria aos russos veio dos próprios países satélites, o que conferiu credibilidade à advertência de Khrushchev ao Ocidente capitalista: "Nós vamos enterrá-los".


A supremacia comunista possuía uma base ideológica ("teórica") e outra prática. Esperava-se que a "escola de xadrez soviética" elevasse a teoria do jogo, em estratégia e em táctica, a um patamar muito mais alto do que teria sido possível na cultura burguesa do Ocidente:
"Se uma cultura está em declínio, o xadrez também seguirá ladeira abaixo", escreveu Botvinnik.
Havia um traço nacionalista nessa ideologia: as aberturas foram rebatizadas com nomes de mestres russos, e os mestres estrangeiros foram caluniados ou removidos da história oficial.


Mas a base real da escola soviética era a sua colossal infraestrutura, que criou um exército de milhões de jogadores.
Conforme a grande campanha soviética de treinamento dava frutos, e literalmente centenas de jogadores atingiam o nível de Mestre ou Grande-mestre entre os anos 40 e 60, um vasto sistema de recompensas e punições foi construído, repleto de brigas e denúncias intermináveis.
A vida de um profissional do xadrez era privilegiada: as remunerações eram bem mais altas do que os salários médios do cidadão comum, e as viagens ao exterior eram permitidas.
Botvinnik e o seu sucessor Vassily Smyslov receberam a Ordem de Lenine a maior honra civil soviética - enquanto que nenhum xadrezista profissional britânico chegou a ser sagrado cavaleiro.


Mas a pressão para se conformar ao sistema era intolerável para alguns, e um fluxo constante de xadrezistas refugiados seguiu para o Ocidente.
O mais famoso deles foi Viktor Korchnoi, que disputou o campeonato mundial por duas vezes, em 1978 e em 1981 com Anatoly Karpov.
Korchnoi, agora um cidadão suíço, alegou que os seus oponentes soviéticos usaram truques sujos para derrotá-lo.
Embora Korchnoi tenha perdido ambos os torneios, ele ainda joga um xadrez no nível mais elevado, mesmo com os seus mais de 70 anos de idade.
Boris Spassky também partiu para um exílio voluntário na França, após a sua derrota para Bobby Fischer.
Um outro dissidente foi o grande mestre checo Ludek Pachman, que foi preso devido à sua participação na Primavera de Praga em 1968.
Esse marxista que se tornou anticomunista quase morreu no sótão de torturas para o qual foi arrastado no meio da noite.
A fim de tentar escapar de mais torturas, tentou se matar, e disseram a sua mulher que ele não sobreviveria.

Assim como o xadrez reflectiu a Guerra Fria, ela também marcou a queda do
comunismo.
Em 1972, Bobby Fischer, o jovem prodígio norte-americano, tornou-se o primeiro ocidental a desafiar um campeão mundial soviético, Boris Spassky.
O confronto ocorreu em Reykjavik (tal como os seus ancestrais Vikings, os islandeses são fanáticos pelo xadrez).
A história desse confronto extraordinário foi contada inumeras vezes:
como as exigências de Fischer fizeram com que o evento quase fosse abortado antes mesmo de começar;
como Henry Kissinger telefonou para Fischer - "Este é o pior jogador do mundo a telefonar ao melhor jogador do mundo" - a fim de persuadi-lo a jogar;
como o capitalista britânico Jim Slater dobrou o valor do prêmio:
como Fischer finalmente apareceu, perdeu o primeiro jogo, desistiu no segundo, deixando todo mundo na expectativa, venceu o terceiro
(a primeira vez na vida que ele venceu Borys Spassky), e daí para frente avançou sem olhar para trás.
Em retrospectiva, sabemos hoje que nesta altura a Guerra Fria já tinha amaciado, e que as novas tecnologias electrónicas, civis e militares, que estavam começando a transformar o Ocidente, já haviam condenado o comunismo.
Naquela época, porém, isso ainda não era óbvio, e a vitória de Fischer sobre Spassky foi um golpe psicológico.
O próprio Fischer viu o jogo como "o mundo livre contra o russo mentiroso, traiçoeiro e hipócrita... Deu-me grande prazer como uma pessoa livre ter esmagado essa coisa".


A União Soviética continua dominando o xadrez ocidental postumamente, já que a maior parte dos principais Grandes-mestres nos Estados Unidos, Israel, Holanda ou Alemanha é composta actualmente por imigrantes do ex-bloco oriental.
No entanto, o GM que reinou durante a fase final da real hegemonia soviética foi Garry Kasparov.
Nascido em Bakú, no Azerbaijão, de uma família judaica Armênia, Kasparov foi ao mesmo tempo o último campeão mundial soviético, e o primeiro campeão mundial pós-soviético.
Nem o velho Mikhail Botvinnik, que o treinou, nem o sucessor de Botvinnik, Anatoly Karpov, nem o sistema ao qual eles serviram tão lealmente poderiam restringir esse impetuoso e jovem génio.
A sua primeira disputa pelo campeonato mundial contra Karpov, em 1984, foi cancelada após cinco meses e 48 jogos pelo presidente da Federação Mundial de Xadrez, Florencio Campomanes, que alegou que os jogadores estavam exaustos.
Isso deixou Karpov na posse do título - o resultado desejado pelo Kremlin.
Depois disso Kasparov preparou-se não só para esmagar Karpov, mas para abrir o sistema soviético.
Tendo vencido o campeonato mundial em 1985, Kasparov recusou-se a obedecer às autoridades soviéticas.
Embora tenha dedicado a sua autobiografia a Gorbachev, quando a União Soviética desmoronou em 1991, ele era abertamente anticomunista.
Kasparov dominou o mundo do xadrez durante 20 anos, até ao seu auto afastamento em março deste ano, e está agora unido à crescente oposição política ao presidente Putin.


O recorde de Kasparov no xadrez eclípsa todos os outros, mas foi a sua misteriosa derrota com o super-computador "Deep Blue" da IBM em Maio de 1997 que deixou a marca mais profunda.
Muitos assumiram que o xadrez seria agora um jogo "resolvido", ainda que os Grandes-mestres continuassem a derrotar até mesmo os melhores computadores.
Foi a Guerra Fria que originalmente estimulou o desenvolvimento de máquinas jogadoras de xadrez, cuja concepção teve como pioneiros o britânico Alan Turing e o norte-americano Claude Shannon, no final dos anos 40.
As duas super-potências utilizaram programas de xadrez para simular conflitos nucleares, e não foi acidente o facto de o primeiro campeonato de computadores ter sido vencido por máquinas soviéticas e norte-americanas.
Em meados dos anos 70, a superioridade ocidental nesta e em outras áreas da cibernética era nítida.


Desde a Guerra Fria o xadrez tem gozado de uma maior liberdade mas de um prestígio menor.
Quando Kasparov foi desafiado em Londres pelo grande mestre britânico Nigel Short, em 1993, não havia nenhum daquele simbolismo que acompanhou a disputa entre Fischer e Spassky, e quando Kasparov finalmente perdeu o seu título para um russo menos exuberante, Vladimir Kramnik, a disputa (também em Londres) só atraiu interesse dentro do universo existente de xadrezistas.


A ascensão e a queda do xadrez como uma metáfora política e uma arma ideológica coincidiram com um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade. Mas, destituído da atmosfera de ameaça que era um subproduto da Guerra Fria, o xadrez dissipou grande parte do capital que acumulou no decorrer do século passado.

Como um desporto para espectadores, ele não é capaz de satisfazer um público acostumado a entretenimentos rápidos e que não exigem muito sob o ponto de vista intelectual.
Obstáculos artificiais à competição global foram abolidos, mas a FIDE, a organização internacional do jogo, está de pantanas, controlada e subsídiada por Kirsan Ilyumzhinov, o ditador de uma pequena província russa chamada Kalmykia.
O único outro facto digno de nota na vida de Ilyumzhinov foi o seu relacionamento estreito com Saddam Hussein.
Ele estava a bordo do último avião que deixou Bagdad antes que a coligação liderada pelos norte-americanos invadisse o Iraque.
Apesar da excentricidade da instituição que o controla, o xadrez está florescendo em todo o mundo em desenvolvimento, especialmente nas potências emergentes como a Índia e a China.
Na Europa e nos Estados Unidos o xadrez é hoje mais popular do que nunca, principalmente nas escolas, mas luta para conseguir o reconhecimento público do qual desfrutam outros desportos.
Após o fim da Guerra Fria, o xadrez foi privatizado, e embora ele ainda não tenha atraído o interesse de bilionários russos, o jogo foi um dos grandes beneficiários da revolução da Internet.


Assim que foram implementados os clubes, essa instituição tão inglesa, o xadrez tornou-se uma das grandes forças socializadoras, um equalizador de classe, raça, gênero e geração.
Ele não exige infraestructuras: apenas umas poucas peças de madeira ou plástico.
Tanta coisa é devida por tanta gente ao xadrez que o jogo pode ser visto como um micro-cosmos das nossas realizações, como o nosso companheiro constante através das eras.
Se tudo o que restasse da humanidade fosse o jogo de xadrez, os alienígenas nos conheceriam por aquilo que somos: não apenas o Homo Sapiens, mas também o Homo Ludens.

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